Chuva oblíqua


Un amigo nos manda desde Portugal esta imagen del grupo de «indignados» de la Praça do Rossio de Lisboa. De pronto un chaparrón de fin de primavera les obligó a guarecerse bajo una de las lonas que utilizaban. Ciertamente, no son muchos, así que todos pudieron encontrar acomodo. El agua no consiguió que se retiraran de la plaza ni enfrió su actitud de sostenida denuncia. Frente a esta imagen de tenacidad, también nos envía este grafito, más ajustado a la sentimentalidad fatalista portuguesa.


Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro…

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro…

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa…
Fernando Pessoa, Chuva oblíqua (2ª estrofa)